1.12.16

around town

"Em Milão, já era noite. Caminhava devagar, olhando para cima; gostava de ver as janelas iluminadas,a cor das cortinas, o brilho dos lustres, a luz trêmula dos primeiros televisores branco e preto. No verão, chegavam aos meus ouvidos o tilintar das mesas que estavam sendo postas e das cozinhas, alguns gritos, chamados e mesmo pequenas brigas, música e vozes do rádio. Eu ficava nostálgico daquelas existências, que imaginava, ao mesmo tempo, parecidas com a minha e diferentes. Sentia pena por todas as vidas que eu não viveria e uma certa alegria, porque pensava que, de todas, no fundo, eu podia reconhecer ao menos o barulho e o cheiro que me eram estranhamente familiares." 

Eu acho que nunca me relacionei tanto com um trecho de livro quanto esse, que encontrei inesperadamente no Cartas à um jovem terapeuta (de Contardo Calligaris), quando lia para uma atividade de aula. Eu gosto de andar pela cidade, tenho ruas, praças e prédios preferidos, que não são favoritos pela sua beleza ou arquitetura, mas pelo sentimento de nostalgia (inventada) que me trazem. Andar nessas ruas, visitar essas praças, ver esses prédios é como um abraço quente na alma, uma sensação de conforto de existir. Assim como gosto de uma hora específica do dia, quando o sol tá se pondo, e as pessoas estão voltando pra casa, e o clima é diferente. É como se milhares de pessoas se ajudassem, torcendo para uma mesma finalidade: chegar em casa. Parece que tudo pode dar certo nessa hora. É a hora da esperança.
Eu sempre gostei de imaginar a vida das pessoas. Acho que menos por curiosidade e mais pela sensação acalentadora de saber que outras pessoas estão vivendo, de não ser só no mundo. Um cheiro, um barulho, uma janela por onde se vislumbra uma tv, um sofá, uma máquina de costura, ou simplesmente uma foto é capaz de instigar a minha curiosidade e eu crio, quase sem perceber, um contexto, uma história, eu completo aquela cena com minhas memórias inventadas. Eu gosto de pensar nas pessoas que cruzam diariamente as minhas ruas favoritas, minhas praças prediletas, meus prédios amados, e imaginar se elas apreciam da mesma forma que eu aprecio estar ali, apenas observando a vida acontecer, sentindo conforto e felicidade por existir e fazer parte disso tudo. Pra onde elas vão, de onde vêm, quem são, isso na verdade não me interessa, parte de mim tem medo de que se eu souber a verdade, a mágica se quebre.
Talvez ver isso, imaginar isso, seja o momento em que eu entenda o que se resume a felicidade, ou a vida. A vida é muito simples. Ser feliz na vida é muito simples. É sair de casa para trabalhar, voltar caminhando e passar pela sua praça preferida, e achar que o seu edifício é o edifício mais acalentador que existe. É olhar pela janela e ver o dia acabando, e sentir que o dever foi cumprido. É isso que eu quero pra minha vida.
Talvez tudo isso seja uma bobagem. Talvez eu seja uma miolo-mole com pouca coisa a fazer. Mas a verdade é que isso, esses momentos em que eu me sinto acalentada da vida, onde tudo parece dar certo, seja sozinha parada numa esquina olhando pra cima e contando janelas, seja observando os carros voando pras suas casas, ou olhando aquele velhinho tomando chimarrão num oásis no meio da cidade, é nesses momentos que a fé de que tudo vai dar certo se renova. E é nisso que eu me agarro.  É o que me faz feliz.