toda vez que eu olho pra isso lembro de você. você sempre
fazia uma cara parecida com essa e eu ria.
porque você era desastrada. você é desastrada.
eu sempre ria de você porque mesmo tão
pequena você consegue ficar gigante dentro dos lugares, derrubando coisas com
seus braços insensíveis, batendo seus quadris errôneos nas quinas das mesas e
prendendo o cotovelo torto nas maçanetas. você parecia a alice na casa do
coelho. imensa.
foi assim que você ficou imensa dentro de mim. com os quadris manchados de
roxo, com coisas aos pedaços. foi assim que eu tive que ir abrindo o espaço,
guardando o que podia machucar, deixando as portas abertas para que você
passasse sem se ferir. eu queria cuidar de você.
por isso eu lembro de você com isso. porque você era isso. você era essa sensação
depois de bater com a cabeça na porta do armário da cozinha, de bater o dedinho
do pé no pé da cadeira, de furar o dedo com a agulha de costura enquanto prega
um botão.
você era essa sensação de idiotice por um minuto, essa revolta de como uma coisa
tão boba pode doer tanto.
