lá estava ele, o único homem que eu amei, sentado na minha frente, me pedindo nada, mas escutando voluntariamente enquanto eu jogava minha dignidade, meu orgulho, minha aparente sanidade, no lixo.
de tempos em tempos ele me procurava, como se eu nunca tivesse agido como uma adolescente desesperada e apaixonada, jogando raiva e rancor nele, que nunca fez nada de errado, afinal.
ele ficou lá sentado, os olhos semicerrados ouvindo atentamente ao que eu falava e me explicando, calmamente e com longas pausas, coisas (de mim, das pessoas, do universo) como se eu fosse uma criança. meu olhos certamente brilham como os de uma criança quando ele fala. e com a mesma facilidade que ele abria botões das minhas camisas e me despia ele me despia com as palavras, sem manejos e floreios, ele me deixava em pelo, sem me dar chances para virar o jogo, jogar alguns "bem, você não me conhece tanto assim...", porque no final das contas ele me conhecia. gentilmente, ele contava verdades sobre mim, me deixando tão vulnerável quanto todas as vezes em que ele violentamente puxava meus quadris para si.
eu me senti um completo desastre admitindo coisas pra ele que não gostaria de admitir nem a mim mesma. sem chances de fingir ou de fugir, completamente livre de pudores e receios eu contei pra ele todas as coisas. e ele me ouviu. e entendeu. depois ele me levou até em casa naquela noite fria como ele costumava, e me fez rir como costumava.
eu amei ele. eu percebi tarde demais. ou cedo demais. e eu amei ele essa noite, mesmo que nossas mãos mal tenham se tocado e nossas bocas tenham ficado sem o gosto um do outro. meu coração leve e pesado por saber e não poder falar pra ele como eu me sentia já que tinha outra pessoa ocupando o lugar que um dia foi dele na minha vida.
ele olhou pra mim por muito tempo e com um abraço quente e confortável ele se despediu. eu vi minha chance de ter tido uma vida diferente indo embora.