6.3.16

can't stand me now

eu perco tempo demais colecionando coisas. eu tenho mais livros do que leio, tenho mais filmes guardados do que assistidos, tenho milhares de páginas salvas nos favoritos que deixei pra ler depois. eu gasto toda minha cota de livros que posso levar pra casa da biblioteca e não leio. eu compro mais canetas do que preciso. tenho mais roupas que comprei pensando em sair do que vezes que saí. eu tenho listas completas até o meio, e mil álbuns marcados pra ouvir. eu tenho finais inacabados. eu tenho amores pela metade.
eu gasto metade do tempo que eu tenho pensando no que minha vida não é, em como eu não sou, naquilo que eu não tenho. a outra metade eu tenho medo e meu corpo se consome pensando em tudo que eu tinha que fazer e não faço. se sobrar tempo eu penso em tudo aquilo que eu perdi e perco mais tempo.
eu tenho objetivos mas eles ficam num final tão distante que ele é só um pontinho de luz no meio da noite escura que eu faço minha mente ser. eu sou na média: tenho dinheiro na média, sou aluna mediana, engraçada na média, bonita na média, média na cama. eu não sou simpática, eu não sou cativante, eu passo despercebida no meio do salão. eu não tenho nenhum grande atrativo: nem meu olhos, nem minha boca, nem pernas matantes. minha risada não enche o espaço. ela é desengonçada, como meu andar. e minha postura - eu tenho grandes mágoas com a minha inabilidade de arrumar minha postura com quase trinta anos de existência. e minhas orelhas não param de crescer. eu sou rancorosa mas não da maneira certa. eu não sei fazer alguém fazer minhas vontades a não ser que eu pareça doida. e eu não sou aquele tipo de doida que ninguém consegue largar, uma doida charmosa, eu sou uma doida ridícula. eu não sei cozinhar, eu não sei dançar, eu não sei sair bonita nas fotos. eu não sou difícil de lidar, eu não sou inesquecível. eu não tenho um temperamento difícil mas adorável. as pessoas conseguem viver sem mim com facilidade. meu cabelo é normal e meus peitos são pequenos. eu não gosto de falar com as pessoas o tempo todo. eu gosto de ser sozinha mas eu reclamo de estar sozinha o tempo todo. eu sou orgulhosa e culpo os outros. eu erro e não peço desculpas. eu arrumo justificativas e continuo cometento os mesmos erros - mesmo os que cometo contra mim mesma.
eu queria que houvesse uma boa desculpa pra tudo isso, uma doença incapacitade, uma história difícil, mas é só quem eu sou. e às vezes é muito, muito, muito difícil de gostar de mim, mas - e mesmo que esse seja um "mas" realmente complexo de se terminar - eu preciso. então eu tento. pouco a pouco a gente se acostuma com a bagunça que a gente é.