30.9.13

o avesso do avesso do avesso do avesso

 São Paulo é uma cidade incrível. são milhares de possibilidades e gente de todos os tipos de todos os cantos do mundo. e são paulo não é feia como dizem. mas talvez seja uma questão de ponto de vista, eu gosto dos arranha-céus, dos prédios espelhados e do barulho insuportável dos aviões.
a primeira vez que eu vim pra cá eu senti que precisava estar aqui. eu ia vendo as coisas e soltava um “uau” impensado. e definitivamente, alguma coisa acontece no meu coração que só quando cruza a brigadeiro com a avenida paulista e ah! meu coração... 
mas foi só isso. 
desde que mudei de vez pra cá as coisas tomaram outra forma, são paulo parece um desafio e eu nunca me sinto feliz por morar nessa cidade. e aqui, definitivamente, não é onde eu quero passar o resto da vida. sem contar a falta que faz a família e os amigos e o céu do sul.
mas estar aqui tem servido pra aprender coisas que eu só podia aprender por aqui mesmo. e eu acho que eu precisava sair da zona de conforto pra fazer as coisas entrarem em movimento: dentro e fora de mim. 
eu devo ter amadurecido uns quatro anos (que eu devia ter amadurecido na verdade, risos) só nesses seis meses de relacionamento conturbado com esta cidade. mas do lado de fora tudo vai indo devagar. um amigo disse que demora pra entrar em conexão com a cidade de verdade, e de fato, eu me sinto pendurada, flutuando, ao invés de presa no chão. é como se eu fosse um balão de gás que só não sobe e se perde por causa da cordinha na mão de alguém. mas como você vai entrar em contato com alguma coisa tão grande como essa cidade, que é tão múltipla de opções e lugares e demora uma vida inteira pra você encontrar um pedaço de chão, um ladrilho, um azulejo, uma árvore que remeta um pouco algum lugar do passado e que te dê algum conforto pra que você se sinta em casa de verdade? 
não tem conforto aqui. e eu entendo no sentido mais amplo quando eu leio em algum muro ‘não existe amor em são paulo’. não são as pessoas, porque as pessoas que eu conheci aqui, de toda ordem, foram só amor. eu tô falando dos prédios, e das ruas, e do trânsito e todo o resto. é como se os próprios prédios não quisessem ter sido construídos aqui, como se eles tivessem ficado frios porque foi imposto que eles se transformassem nessa coisa áspera e inflexível e orgulhosa. eu não sou dura o suficiente para são paulo. e veja bem, não é como se eu não fosse o suficiente, como se não conseguisse dar conta. eu só não quero me transformar num prédio...
eu cometi muitos erros, eu sei, e me arrependo doloridamente de alguns. mas vir pra são paulo não é um deles, nunca foi um erro. e eu sou grata por essa oportunidade porque só quem passou pela experiência de ir morar num lugar onde ninguém fala sua língua entende o valor que a Casa Da Gente tem. 
são paulo é sim linda. são paulo tem sim amor. mas são paulo tem data de validade.