Depois ela se dividiu, viu em si mesma uma outra pessoa, um escudo, uma força. Ela mesma se pegou pela mão e se embarcou no avião, embarcou no ônibus, embarcou na vida, assim, sozinha. Ela-e-ela. Mas um ela-e-ela diferente, porque ela já era duas antes. Ou uma, mas quem sabe agora?
Depois ela chorava muito, o dia todo e agonizava sozinha. Tudo sozinha. As pessoas vinham com tapinhas nas costas e diziam já vai passar, já vai passar. Mas não passava nunca e dois dias eram dois anos e ela não olhava pro relógio nem pra fora, nem pro jardim, porque pra quê?
Depois um dia ela acordou e abriu a janela, foi estranho porque o vento quase cortou o rosto dela, mas ela agüentou no osso o sol, o céu o vento, a cidade, o vazio.
Aí ela escreveu uma carta – outra, ela adorava isso. Uma carta bem grande com tudo que ela tinha sonhado antes: castelos, mares, navios, princesas, uma rainha... E queimou. E jogou as cinzas pela janela.
Daí ela sentiu uma coisa que não tinha outro nome a não ser felicidade. E ela não viu só um caminho, viu vários... Escolheu o mais bonito e foi. E tá indo.