6.3.12

às vezes a gente encontra umas coisas bonitas no meio da amargura


Dez de Janeiro, 2012
abro os olhos e primeiro de tudo vem as lágrimas. depois o pensamento: por favor, por favor, por favor, por favor, por favor....

Treze de Janeiro, 2012
quando eu acordo o sol ainda não subiu. o quarto fica mais escuro por causa da proximidade do prédio do lado. eu olho pra janela, aqui tem sempre esse clima ameno. eu não sei se eu sinto frio ou calor – se eu sinto qualquer coisa. fico ouvindo os barulhos lá de fora, barulho de gente, barulho de vida: escovas de dente batendo na pia, janelas abrindo, cafeteiras roncando.
aqui dentro ou ouço a respiração dela deitada de costas pra mim, as costas nuas (cruel. ela sempre foi). respiração profunda e calma. como se ela não causasse nenhuma mágoa noutro ser humano.
me aproximei e toquei nos ombros dela, mas ela esquivou das minhas mãos geladas. 
ela fugiu das minhas mãos.


Vinte e seis de Janeiro, 2012
ela quer que eu vá embora. parte meu coração. eu não tenho mais casa pra voltar.

Oito de Fevereiro, 2012
ontem ela me olhava, olhava... eu queria que ela me olhasse. mas dói quando ela me olha. só dói quando ela me olha. 


Nove de Fevereiro, 2012
não senti nada. mas isso é hoje. amanhã talvez tudo doa.

Treze de Fevereiro, 2012
eu acordei e fiquei olhando pra ela enquanto ela dormia. quando ela acordou, tive vontade de dizer 'te amo'. depois eu pensei que ia ter acrescentar 'por favor, por favor, tu pode me amar de volta outra vez?'. mas aí ela levantou sem dizer nada. eu chorei um pouco e baixinho.

Dezessete de Fevereiro, 2012
É o fim. O Grande Fim. Eu já devia ter ido embora. Esgotou. Poderia ter ficado em nós resquício qualquer de respeito mútuo. Mas acabou. Consumiu. Eu consumi.
Cansei a paciência dela, esfarelei minha dignidade.

Vinte e sete de Fevereiro, 2012
Soletre: A-C-A-B-O-U.

Vinte e nove de Fevereiro, 2012
Tô indo embora. Agora essa cidade me parece linda.

Primeiro de Março, 2012
Soltei a respiração.