Dez de
Janeiro, 2012
abro os
olhos e primeiro de tudo vem as lágrimas. depois o pensamento: por favor, por
favor, por favor, por favor, por favor....
Treze de
Janeiro, 2012
quando eu
acordo o sol ainda não subiu. o quarto fica mais escuro por causa da
proximidade do prédio do lado. eu olho pra janela, aqui tem sempre esse clima
ameno. eu não sei se eu sinto frio ou calor – se eu sinto qualquer coisa. fico
ouvindo os barulhos lá de fora, barulho de gente, barulho de vida: escovas de
dente batendo na pia, janelas abrindo, cafeteiras roncando.
aqui dentro
ou ouço a respiração dela deitada de costas pra mim, as costas nuas (cruel. ela sempre foi). respiração
profunda e calma. como se ela não causasse nenhuma mágoa noutro ser
humano.
me aproximei e toquei nos ombros dela, mas ela esquivou das minhas mãos
geladas.
ela fugiu das minhas mãos.
Vinte e seis
de Janeiro, 2012
ela quer que eu vá embora. parte meu
coração. eu não tenho mais casa pra voltar.
Oito de
Fevereiro, 2012
ontem ela me
olhava, olhava... eu queria que ela me olhasse. mas dói quando ela me olha. só
dói quando ela me olha.
Nove de
Fevereiro, 2012
não
senti nada. mas isso é hoje. amanhã
talvez tudo doa.
Treze de
Fevereiro, 2012
eu
acordei e fiquei olhando pra ela enquanto ela dormia. quando ela acordou, tive vontade de dizer 'te amo'. depois eu pensei que ia ter acrescentar 'por
favor, por favor, tu pode me amar de volta outra vez?'. mas aí ela levantou sem
dizer nada. eu chorei um pouco e baixinho.
Dezessete de
Fevereiro, 2012
É o
fim. O Grande Fim. Eu já devia ter ido
embora. Esgotou. Poderia ter ficado em nós resquício qualquer de respeito
mútuo. Mas acabou. Consumiu. Eu consumi.
Cansei a
paciência dela, esfarelei minha dignidade.
Vinte e sete
de Fevereiro, 2012
Soletre: A-C-A-B-O-U.
Vinte e nove
de Fevereiro, 2012
Tô indo
embora. Agora essa cidade me parece linda.
Primeiro de
Março, 2012
Soltei a respiração.