Ela gritava de maneira encantadora. E engraçada. Não era culpa dela.
Acendi um cigarro e o arranjei entre meus dedos e suas garras pintadas de vermelho.
Olhei no meu relógio de pulso. Se eu ao menos tivesse pulso eu diria que tudo era deprimente, ao invés de rir da situação.
Ela continuava lá, deixando suas lágrimas pesadas caírem por trás dos óculos.
Gritou mais uma vez, que a culpa era minha, que eu era indecente, mentirosa e covarde. De todas suas ofensas nenhuma me magoou mais do que me chamar de covarde, pois, não é preciso coragem para então sair da linha de segurança e se arriscar num quarto de hotel qualquer por algumas horas de diversão ilícita?
“Ora, por favor!” ouvi sair da minha boca, como que involuntariamente. “Você sabia exatamente onde enfiaria seus lindos dedinhos quando me conheceu, Lô, não nos vamos fazer de inocentes.” Ops, saiu novamente.
Ela berrou que mesmo assim eu a enganara, que eu a negligenciara. “Negligenciar? Mas você é como...” me faltaram as palavras. “Como um escape.” Ela se ofendeu.
Gritou mais um pouco, tentou jogar coisas em mim, mas era péssima de mira. Que culpa eu tenho se ela se envolveu, não é mesmo? Somos adultas, por favor, sexo é sexo.
“Você fala demais. É só o fim!” Mais uma vez, traída (?) pela língua.
E então ela veio com o clichê “você nunca vai encontrar ninguém como eu.”
E então o óbvio veio à cabeça e eu pensei alto, mais uma vez: “Há sempre alguém que quer ser enganado.”