18.1.11

Todo o vocabulário

Eu costumava escrever sobre elas, transformá-las em poesia. Deixá-las em cima da mesa, ou no meu criado-mudo, sempre perto dos meus olhos, das minhas mãos. Eternizava-as em belas linhas suntuosas e cheias de graça, linhas libertinas e perfumadas. E elas estariam na minha vida para sempre.
Meu para sempre durava pouco, tão logo as imortalizava – as musas da minha arte, e elas desapareciam da minha vida. Transformavam-se então em nuvem de poeira e o som da minha voz lendo-as em voz alta, tentando adormecer na minha cama, sozinha.
Então compreendia que elas nunca existiram a não ser naquela minha imaginação psicodélica, distorcida da realidade. Minhas musas sumiam e se transformavam em bruxas.
Até o dia em que eu encontrei ela. Ela eu era incapaz de descrever. Era como se minha tinta e pena não funcionassem, como se minha máquina velha enferrujasse. Eu não sabia onde encontrar os objetos para me comunicar.
E ela me inspirava – emocionalmente, espiritualmente, ela me inspirava às mais felizes linhas de amor. E só então eu pensei em escrever sobre o amor e como ele me tocava, pois nunca havia sido tocada por ele. E isso me transformou na mais modesta mulher no mundo. Me transformei em menina, em delicadeza, e de mim só saíram palavras ternas.

E eu não escrevo sobre ela não porque eu tenha medo que ela se dissipe no ar, como todas as outras, mas porque ela é tão real que nada do mais lírico pode descrever como é ela. Ela é tudo: minhas palavras, minhas linhas, meus parágrafos, meu texto inteiro...