. as coisas que eu queria te dizer não fazem mais sentido se todas as cartas que te mandei foram rasgadas, se as palavras que pronunciou foram apagadas.
ainda tenho meu corpo moldado pro teu; nenhum outro vai embrenhar-se onde eu vi tua fúria, teu ódio.
todas as noites eu espero que as palavras voem até teus olhos, porque todas as vezes que eu os vejo eles me mandam morrer. moro nessa existência, meio zumbi, esperando que eu pare de rolar na minha cama, em outras camas, em outros muros para apagar tudo que eu quis por todo nosso tempo, tudo o que vem me assombrar durante a noite.
querendo dizer que na verdade anseio que meu machucado delicadamente queimado seja beijado pelos teus lábios banhados do meu gosto, do meu cheiro, do meu sangue, de tudo de mais valioso que eu pude te dar.
tua presença me assombra, me procurando nos cantos da casa, me seguindo nos corredores vazios, me arrancando suspiros à noite, na cama fria – um abismo entre minha cama e o chão enquanto te vejo flutuar por cima da cabeceira, rindo satisfeita do meu desejo.
entendi que nunca vou ser boa o suficiente; eu nunca vou te ver dobrar a esquina.
sinto todos os nossos restos queimando ao nascer do sol.