17.1.09

Vira-lata.

Eu quis me envolver na tua rede. Quis me sufocar no teu abraço. Exigindo incansavelmente aquilo que não me saciava, que ao contrário, só me fazia mais faminta. Correndo avidamente atrás da tua sombra, implorando como um cão que me passasse as mãos pela cabeça acenando “boa menina, boa menina”, esperando como recompensa restos daquilo que te alimentava, mas que a mim só fazia mal, que me resultava numa indigestão cerebral.
Eu resisto e insisto, e finalmente, no dia em que tem mais doçura nos olhos, você me abraça e me beija na testa, e me afaga a nuca e ainda tão perto me diz que não, e me diz prá ir embora e me sorri e me alimenta pela última vez daquilo que me adoece, e então some na esquina e eu volto a ser o que sempre fui: um cachorro maltratado e abandonado, que só se alimenta do lixo dos outros.